NOTÍCIAS /Renato Flôres – “O Sul Global é a consciência da...

Renato Flôres – “O Sul Global é a consciência da possibilidade de criar alternativas ao Norte avançado”

08-10-2026

Entrevista de Leonídio Paulo Ferreira a Renato Flôres, orador na 7ª Conferência de Lisboa.
Publicada originalmente no Diário de Notícias a 08 Out 2026.
Fotos: Leonardo Negrão


Diretor da International Intelligence Unit na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, Renato Flôres é um dos participantes da Conferência de Lisboa, que se realiza hoje e amanhã na Gulbenkian, e conversou com o DN sobre a reconfiguração da ordem mundial.

 

Como olha para a competição entre os Estados Unidos e a China? Os Estados Unidos são ainda claramente o país mais poderoso do mundo ou a China já se aproxima?

Essa pergunta permite-me colocar um ponto pelo qual me venho debatendo. Não olho para a rivalidade entre os Estados Unidos e a China nem como uma disputa pela hegemonia nem como uma negociação para a divisão do mundo. Não concordo com essa visão em termos de ordens: seja uma ordem bipolar, com o poder mundial dividido entre os Estados Unidos e a China, seja uma ordem unipolar, em que a China, a certa altura, substituiria os Estados Unidos. O que vejo no mundo é o seguinte: um Hegemon muito poderoso, como talvez nunca se viu, comparável ao Império Romano, está a cair. E a queda de um Hegemon não é um processo linear nem simples. O poder de um Hegemon desta força é multidimensional e, consequentemente, a sua queda também o será. Embora haja uma tendência decrescente, vamos ter configurações mais favoráveis e menos favoráveis a oscilar em torno dela. Todos os outros Estados, incluindo a China, estão a procurar espaços para satisfazer os seus interesses nesse contexto de queda. Não há uma rivalidade explícita de substituição. É um processo de queda.
 

Uma queda que pode demorar muito tempo e que, nalgumas áreas, pode não ser muito visível e, noutras, ser mais acelerada?

Exatamente. Vai haver áreas tranquilas, mais acomodadas, que de repente, tempos depois, passam a ser de conflito, porque os Estados Unidos, goste-se ou não, estão praticamente em toda a parte. E não é só a presença física das bases militares espalhadas por todo o lado, nem do capital. É a presença indireta nos sistemas que regem as transações internacionais do planeta. O exemplo clássico é o sistema monetário internacional. Ainda que haja esforços, dos BRICS por exemplo, para mudar a moeda universal, que é o dólar, e que também está a decair, o sistema monetário internacional é muito mais do que isso: meios de pagamento, a credibilidade dos cartões de crédito, operações financeiras, swaps internacionais. Por trás de tudo isso estão os Estados Unidos. À medida que se vão retirando, vão criando outras coisas. O dólar começa a perder espaço? Lançam uma criptomoeda baseada no dólar. Vai haver reações e contrarreações. É um processo que vai demorar muito tempo e que não é linear, nem no tempo nem na geografia.
 

Entre as potências que podem aproveitar esta queda do Hegemon, a China parece a mais bem preparada. A Rússia, apesar de todo o poder militar, não tem essa capacidade. Nem a Índia ou mesmo o Brasil têm, certo?

Concordo que a China é a mais bem preparada, tanto pelo desenvolvimento interno como pela postura externa. Mas o poder é multidimensional, e a capacidade de aproveitar também. O Brasil, por exemplo, pode aproveitar. Tem uma dotação energética extraordinária e, com os problemas nos combustíveis fósseis, as dificuldades de comércio, o bloqueio de vias de transporte, o Brasil ganha. Quero sublinhar o lado inesperado e caótico da queda: vários países podem aproveitar. Os países da costa de Bab el-Mandeb tornaram-se importantíssimos. Muita gente nunca tinha ouvido falar de Omã; hoje toda a gente sabe que fica à entrada do Golfo Pérsico, junto ao Estreito de Ormuz. A Indonésia, um país enorme, tem muitas oportunidades a explorar. As oportunidades vão aparecer em vários sítios, e o Brasil tem de ter isso em mente.
 

O Brasil é uma grande potência: o 5.º maior país do mundo, o 7.º mais populoso, a 10.ª economia, depois de já ter sido a 6.ª. Apesar de não ser o emergente que era há dez anos, continua a ter um potencial enorme, e nalgumas áreas esse potencial já se concretiza.

A área clássica é a alimentação. O Brasil é hoje o celeiro do mundo e continuará a ser. Tem uma agricultura muito competitiva, muito bem gerida, inclusive, para usar a palavra da moda, com Inteligência Artificial. É personagem obrigatório em qualquer discussão sobre segurança alimentar. Poderia ser um exemplo também no clima, mas o debate climático, apesar de uma certa renascença, está em baixa devido à desordem mundial. E o próprio Brasil, embora tenha feito algumas coisas interessantes, deixa a desejar em algumas políticas ambientais; não tem aí o protagonismo que deveria ter. Na energia, certamente: os europeus cobiçam o hidrogénio verde brasileiro, uma área muito interessante, mas ainda incipiente. E a água: o Brasil tem talvez a posição mais invejável do mundo em recursos hídricos. Na Índia ou na Austrália, a água é um fator limitante; no Brasil, não. O país tem de ter uma posição cada vez mais ativa sobre como integrar e preservar essa riqueza. Outra área que me preocupa muito é a digital. Hoje, sem um semicondutor, nem a máquina de café funciona. Todos os eletrodomésticos usam semicondutores, e o país está defasado. Isso pode vir a ser uma séria dependência.
 

É uma área em que o Brasil não está a atualizar-se?

Não, e poderia ter uma posição intermédia. O país é perfeitamente capaz de produzir os chips básicos, os dos eletrodomésticos, a maioria dos chips para a indústria automóvel. E estamos a perder o pé. É necessária uma política. Cada setor coloca um problema. As terras raras e os minerais críticos, por exemplo: não sabemos até quando, porque a tecnologia evolui muito depressa, mas num horizonte de dez anos certamente serão importantes. O Brasil é bem dotado, sobretudo em terras raras e alguns minerais críticos, mas a sua percentagem na exploração mundial é ínfima, porque não começámos uma exploração sistemática e inteligente.
 

Recuando 20 e poucos anos, quando surge a ideia dos BRICS, as quatro grandes economias emergentes tinham todas crescimentos muito interessantes, ainda que a China num patamar diferente. Hoje, a Rússia é claramente afetada pelas sanções, a China não cresce tanto mas continua a progredir, a Índia mantém dinamismo. O Brasil não. O que se passou nestes 20 anos?

Os BRICS vieram da ideia de um economista: economias grandes com taxas de crescimento fabulosas. O mundo é dinâmico, tal como a queda do Hegemon, e as configurações alteram-se. A China continua bem, mas o padrão de crescimento já não é o da época dos BRICS. A Índia atravessa um momento difícil, porque precisa de dar um passo em frente que exigiria uma estrutura doméstica mais desenvolvida e ordenada. O atual governo indiano prioriza o lado hindu da Índia, que é importantíssimo; ninguém nega a importância do hinduísmo e as maravilhas da cultura e da religião hindus. Mas a Índia sempre foi uma mistura, um caldeirão cultural. Chamar invasores aos muçulmanos… muito antes do Império Mogol já os muçulmanos tinham entrado na Índia. Uniformizar a cultura olhando só para o lado hindu é uma pena, e isso tem consequências no crescimento, na participação da elite muçulmana, entre outros problemas. A Índia está num momento delicado, tal como a África do Sul. O Brasil, na época dos BRICS, além de crescer, fez uma revolução social muito significativa na redução da desigualdade. Infelizmente, por questões políticas, andou um pouco para trás, e a desigualdade continua a ser um problema nacional sério. E, com uma conjuntura internacional muito mais difícil, passou a crescer menos. Mas gostaria de sublinhar que os BRICS, ainda que não tenham o brilho da época em que foram criados, são uma história de sucesso.
 

Os BRICS originais ou o grupo alargado?

O processo BRICS. Primeiro, os originais mantiveram-se. Continua a ser um fórum de discussão. Assume muito menos do que se desejaria, mas assume posições conjuntas, unindo animais completamente diferentes, como a Rússia, a Índia, a China, o Brasil e a África do Sul. E alargou-se: temos hoje os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Irão, três países do Golfo, não necessariamente amigos, não necessariamente rivais; a situação ali é muito complexa. Temos a Indonésia, a Etiópia, o Egito, outro país que pode descolar. Neste momento tem várias restrições, inclusivamente devido à sua relação com o Hegemon, mas é um país com potencial e com uma elite. Os BRICS continuam a ter espaço. Tal como a Organização de Cooperação de Xangai, que é muito importante e junta países da Ásia Central, hoje considerados cruciais. O presidente da Coreia do Sul esteve há pouco no Uzbequistão. E esses países estão todos com a China e a Rússia na Organização de Cooperação de Xangai. BRICS, Organização de Cooperação de Xangai, Sul Global: não são só rótulos, nem coisas para irritar o Norte desenvolvido. Fazem parte de um processo. Volto à queda do Hegemon: na queda, começam a desenvolver-se processos paralelos. Um deles é a consciência do Sul Global. Há quem diga que o Sul Global não existe. A Coreia do Sul é do Sul Global ou não? Acho que é. O Sul Global é a consciência da possibilidade de criar alternativas ao Norte avançado.
 

Falámos dos EUA, da China, do Brasil, dos BRICS, do Sul Global, mas ainda não falámos da Europa. Alemanha, Reino Unido, França, contam pouco neste contexto de queda do Hegemon? São até prejudicados?

São prejudicados. Acho que a Europa atravessa um período infeliz. Estudo a Europa há muito tempo e acho que isto começou com o grande alargamento de dez membros. A partir daí a governação ficou muito complicada. Isso juntou-se à queda da União Soviética e ao facto de a Europa nunca ter conseguido equacionar a sua relação com a Rússia. Foi um erro capital da União Europeia. A Rússia não tinha de entrar na UE, mas podiam ter uma relação construtiva, ou pelo menos não agressiva. É claro que o Hegemon teve um papel nisso, porque incentivou a Europa a fazer a expansão da NATO, uma das raízes da má relação com a Rússia. A Rússia sempre avisou que não queria foguetes em cima dos olhos. A ideia de um tampão é antiga; desde o Império Persa que houve zonas-tampão. A Rússia pediu que se deixasse uma, e a Europa fez ouvidos de mercador, como dizia a minha avó.
 

Estamos a falar de potências. Mesmo assim estão a ser arrastadas pela queda do Hegemon?

Claro. Primeiro, porque a Europa está presa à relação com o Hegemon, que também não soube resolver. Desde meados dos anos 50, quando a Europa começa a estabilizar, que os EUA lhe pedem para aumentar a participação na sua defesa. O senhor Trump não é o primeiro a pedi-lo. A Europa viveu o luxo de gastar pouco e não se preocupar com a defesa, porque o Hegemon a defendia. Resultado: não sabe equacionar a relação com um Hegemon que se está lentamente a contrair e que não quer gastar o que gastava para garantir uma Europa que já não é tão estratégica. Os lugares estratégicos hoje são o Estreito de Ormuz e outras áreas que o preocupam muito mais. Segundo, a Europa não sabe conviver com a enorme diversidade que ela própria criou no seu seio. Terceiro, não sabe conviver com a Rússia, e entrou no atoleiro da Ucrânia. Diz que defender a Ucrânia é defender a democracia, quando a Ucrânia é gerida por um ditador, e põe fundos para fazer uma guerra por procuração com a Rússia.
 

Chama ditador a Zelensky?

O mandato acabou há dois ou três anos e ele não convoca eleições, alegando que o país está em estado de sítio. Não convoca porque vai perder. Podia perfeitamente fazer algum tipo de teste democrático à sua gestão. Não fez. E ampara-se numa substancial esmola europeia em armamento. A Europa entrou num jogo perigosíssimo, do qual os Estados Unidos também se querem retirar, e não sabe como o gerir, porque não tem a autoconfiança para se sentar à mesa com a Rússia.
 

Mas Vladim Putin está no poder desde 2000 e controla todo o sistema. E ocupa 20% do território da Ucrânia. A Europa deveria negociar mesmo assim?

Claro, tem de negociar com a Rússia. A Rússia sempre viveu com regimes autocráticos. Dizer que Putin é autocrático é como dizer que Portugal tem um céu bonito: não é novidade. Mas a Europa devia, há muito tempo, desde que tentou alargar a NATO à Geórgia e à Ucrânia, ter-se sentado com a Rússia. Em vez disso, vive de fantasias que hoje são quase cómicas. A Rússia sustenta-se por milagre, graças à habilidade de encontrar mercados para a sua grande riqueza de exportação, os combustíveis. Estamos há quatro anos em guerra, com sanções, e sobrevive. É um milagre. Dizer que o plano de Putin é atacar a Europa, expandir-se e refazer o Império Russo, pelo amor de Deus, é de quem não sabe economia e não conhece nada da Rússia. A Rússia quer um mínimo de estabilidade numa fronteira alargada. Não tem condições para invadir mais ninguém. E fica o bicho-papão. Não quero acusar ninguém, porque há muita gente lúcida na Europa, mas os dirigentes europeus vendem o bicho-papão russo para justificar uma política errada em relação à Ucrânia. E é uma política imoral, porque ucranianos e russos continuam a morrer enquanto se discute em Bruxelas que isto é o ponto fulcral da democracia europeia. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.

Voltar

Categorias

  • Conferências de Lisboa
  • Desenvolvimento
  • MUNDO
Desenvolvido por A Cor Laranja