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Hein de Haas – “A única forma de reduzir a imigração é prejudicar a economia. E isso ninguém quer”

07-10-2026

Entrevista de Helena Tecedeiro a Hein de Haas, orador na 7ª Conferência de Lisboa.
Publicada originalmente no Diário de Notícias a 07 Out 2026.
Fotos: Paulo Alexandrino / Global Imagens


Antes da vinda a Portugal para a 7.ª edição das Conferências de Lisboa, dias 8 e 9, Hein de Haas, sociólogo neerlandês e um dos grandes estudiosos da migração a nível mundial, falou com o DN por Zoom.

 

Em finais de julho, assistimos a uma onda de dezenas de milhares de migrantes a entrar em Ceuta. Alguns falaram de uma “crise migratória”, outros de uma “invasão”. A realidade é mais complexa do que qualquer uma destas explicações?

Sim, obviamente, isto é uma crise fronteiriça. Se 70 mil pessoas desembarcam numa cidade fronteiriça de 80 mil habitantes, é compreensível que, para quem lá vive, seja uma grande crise. À escala nacional, falar em “invasão” é desproporcional. E, em segundo lugar, não são invasores, são, na maioria, jovens à procura de emprego. E todos sabemos que esses empregos existem. O debate centra-se no porquê de esta crise ter acontecido. O governo marroquino abriu a fronteira de propósito? Houve contrabandistas envolvidos? Para mim, a verdadeira questão é saber porque é que estas crises continuam a acontecer desde 1991. Vemos estas crises a acontecer de tempos a tempos em Espanha, nas Canárias, noutros países do Mediterrâneo. Infelizmente, as causas estruturais deste problema ainda não foram completamente resolvidas.
 

O que leva as pessoas a fazer algo deste género? Falou-se em desespero…

A maioria dos migrantes não está desesperada. Não pertencem às classes mais pobres das suas sociedades. Pertencem frequentemente às classes trabalhadoras em ascensão e às classes médias baixas desses países. Geralmente, são pessoas que foram à escola, que têm algumas competências, mas que já não estão satisfeitas com o tipo de trabalho que os seus pais provavelmente aceitariam fazer. O paradoxo reside no facto de o desenvolvimento, sob a forma de redução da pobreza, melhoria da educação e melhor acesso à informação, conduzir geralmente a um aumento da migração, uma vez que aumenta as capacidades e as aspirações das pessoas para se deslocarem. É um fenómeno humano normal, pelas mesmas razões que levaram muitos europeus das últimas gerações a frequentar o ensino superior e a ambicionar empregos diferentes dos dos seus pais. E isto é muito típico num país como Marrocos, que duplicou o seu nível de vida desde 1990. É claro que ainda existem muitos problemas, como a grande desigualdade e a corrupção, mas o progresso é inegável. No entanto, apesar deste progresso, a imigração não diminuiu, antes pelo contrário, aumentou. E isto acontece porque o desenvolvimento, a educação e o acesso aos media elevam as aspirações das pessoas e o tipo de vida que desejam. A redução da pobreza significa também que mais pessoas têm meios para migrar, uma vez que a migração é dispendiosa. A grande maioria dos africanos que emigram para a Europa fazem-no legalmente – 9 em cada 10. Mas porque é que a imigração ilegal continua? No que se refere à imigração vinda de Marrocos, não se trata, na sua maioria, de refugiados. Trata-se de jovens, homens e mulheres, que procuram empregos onde possam ganhar 5 a 10 vezes mais do que em Marrocos. Isso ficou bem patente durante a crise do mercado de trabalho espanhol. Os marroquinos deixaram de ir para Espanha. Crises fronteiriças deste género continuam a acontecer porque existe uma incompatibilidade estrutural entre, por um lado, a procura destes trabalhadores nos mercados de trabalho europeus e a tolerância tácita para com os imigrantes indocumentados que realizam todo o tipo de trabalho. Por outro, há o desejo de reduzir a migração. Ou seja, a falta de canais legais de migração. Esta é, por definição, uma receita para empurrar a migração para a clandestinidade. A maioria dos migrantes indocumentados que exercem estes trabalhos permanecem neles porque todos compreendem que fazem um trabalho útil. A falta de canais legais também alimenta a indústria do contrabando. Porque os contrabandistas são prestadores de serviços que ajudam os migrantes a atravessar as fronteiras, na ausência de canais legais suficientes.
 

E como viu a reação de alguns países europeus perante a crise em Ceuta, por exemplo, Itália, que suspendeu o acordo de Schengen com Espanha? Surpreendeu-o?

Não. Porque os políticos, particularmente aqueles que agora se destacam nas plataformas anti-imigração, já não são exclusivamente da extrema-direita. Aproveitam qualquer crise migratória para criar a imagem de que a Europa está cercada e que os migrantes causaram todos os problemas. Na Europa existe uma hipocrisia política sistemática, estrutural e organizada em relação à migração. Porque os políticos dizem que querem combater a imigração ilegal e ao mesmo tempo, toleram que esses imigrantes indocumentados façam todo o tipo de trabalho essencial. Se realmente quisessem fazer alguma coisa a esse respeito, teriam de prender ou multar fortemente os empregadores que contratem trabalhadores sem documentos, e não punir os imigrantes. Mas não há genuína vontade para isso. Por exemplo, em Espanha, tal como em Itália, e imagino que em Portugal, os trabalhadores imigrantes são muito importantes nos cuidados aos idosos. Portanto, não se trata apenas de grande capital, grandes indústrias ou grandes empresas agrícolas. Toda a nossa sociedade tornou-se cada vez mais dependente deste tipo de trabalhadores. E todos sabemos que muitos deles não têm documentos. Muitos entraram legalmente, sobretudo os que vieram da América Latina, mas permaneceram mais tempo do que o permitido pelos seus vistos. Quanto a Meloni e à reação a Ceuta, não fez sentido porque Ceuta não faz parte do Espaço Schengen. Para mim, isto prova que tudo se resume, em grande parte, à política. Num período entre 2023 e 2028, Meloni está a permitir a entrada, no total, de um milhão de imigrantes legais, o que contradiz completamente a sua narrativa de que precisamos de reduzir a imigração. Ela tem defendido coisas como a proibição das burcas nas escolas e um limite de alunos estrangeiros por turma. Isto ajuda a transmitir uma imagem de firmeza, ao mesmo tempo que ela está a abrir mais vias legais. A minha investigação com os meus colegas em Oxford mostrou que as políticas de imigração não se tornaram mais restritivas porque os governos estão sob pressão devido às mudanças demográficas e às necessidades económicas, que basicamente exigem mais trabalhadores. É por isso que o programa de imigração que Meloni criou é tão eficaz. Mas ela encobre-o com narrativas sobre o Espaço Schengen e críticas a Espanha. O que Espanha está a fazer é deixar as pessoas entrar, permitindo-lhes trabalhar sem documentos e criando depois um programa de legalização. O que Meloni está a fazer é basicamente a mesma coisa, porque muitos empregadores que solicitam vistos estão a fazê-lo para pessoas que já empregam, mas que estão sem documentos em Itália.
 

Essa hipocrisia de que estava a falar, da extrema-direita, mas também do centro, explica-se porque os partidos acham que ser anti-imigração traz votos?

Existem as explicações clássicas. Criar um inimigo externo. Este discurso sobre invasões e êxodos de África cria a ideia de que, se não fizermos nada, seremos invadidos por centenas de milhares, ou mais, de africanos ou árabes. O medo é uma ferramenta política muito importante para angariar apoios. Porque se as pessoas têm medo, querem um líder forte. Um segundo mecanismo, que também existe na esquerda, é o argumento de que por causa das alterações climáticas, centenas de milhões de pessoas começarão a migrar, apesar de não haver qualquer prova científica que sustente esta afirmação. Outra coisa é simplesmente procurar bodes expiatórios. Se tem um problema, como insegurança no emprego, baixos salários, falta de habitação acessível, sistemas de saúde sobrecarregados, é muito tentador culpar os outros, em vez de os políticos apontarem o dedo a si próprios e implementarem as reformas necessárias. É muito fácil, mesmo que todos compreendam que, se os migrantes desaparecessem amanhã, estes problemas provavelmente ainda existiriam. Acho que o último problema é a falta de uma narrativa alternativa. A ideia da migração como um problema a resolver, particularmente quando falamos de migração do Sul Global, está tão profundamente enraizada na mente das pessoas que é muito difícil para os políticos contarem uma história diferente. Foi por isso que escrevi o meu livro Como Funciona Realmente a Migração, publicado em 15 línguas, e que veio comprovar algo em que sempre acreditei: as pessoas querem ouvir uma história diferente. Para além da visão simplista dos prós e contras, esta é uma história sobre a migração tal como ela é. A migração tem aspetos positivos e negativos, mas não é algo que possamos simplesmente ignorar ou desejar que desapareça. Trata-se de lidar com a realidade. E o que vemos é muita política de negação. Negar a procura real de trabalhadores menos qualificados está a criar estes problemas de imigração ilegal, contrabando, pessoas a morrer nas fronteiras, exploração horrível de trabalhadores migrantes. O que, por sua vez, gera problemas de integração a longo prazo. Este é um problema que a Europa enfrenta há muito tempo. As pessoas têm razão quando dizem que a integração pode, por vezes, ser um problema. Por isso, é importante evitar que os migrantes sejam excluídos. Por outro lado, há motivos para otimismo. A maioria dos grupos que outrora eram vistos como “demasiado estrangeiros” e “inassimiláveis” tornou-se parte integrante das sociedades de acolhimento. Por exemplo, os católicos do sul da Europa eram frequentemente vistos como incapazes de se integrar nas sociedades do norte da Europa. A Suíça é um excelente exemplo. É curioso como os suíços temiam, na década de 1960, que os italianos tomassem conta do país, a “Überfremdung” [excessiva estrangeirização]. Nos Países Baixos, também se tentou deportar famílias italianas até à década de 1960. O estrangeiro do passado tornou-se o “nós” dos dias de hoje. E agora estamos a criar novos estrangeiros se continuarmos a excluí-los ou a não lhes conceder certos direitos.
 

Mesmo em países mais abertos à imigração, existe um limite para o número de imigrantes que uma sociedade consegue integrar?

Também não seria a favor de viver num cenário como o do Dubai, onde 80 ou 90% dos habitantes são imigrantes. É isso que considero ingénuo em ser pró-imigração. Na verdade, tanto a ideia das “fronteiras abertas” como a das “fronteiras fechadas” são narrativas simplistas que negam a complexidade da elaboração de políticas migratórias na vida real. O que a história demonstra é que muitos grupos migrantes que antes eram considerados inintegráveis ou inassimiláveis se integraram sem problemas nas sociedades de destino. Compreendo que seja mais fácil para grupos que partilham uma língua ou uma religião. Por exemplo, brasileiros em Portugal ou outros latino-americanos em Espanha. Mas mesmo no caso de grupos muitas vezes vistos como mais difíceis de integrar, de religiões diferentes, culturas diferentes, só se pode julgar após uma ou duas gerações. A migração de curto prazo pode criar problemas, tensões e alienação. Mas o padrão a longo prazo, se observarmos EUA, Reino Unido ou Alemanha, é que também a maioria dos migrantes de países muçulmanos ou africanos têm um desempenho notavelmente bom na integração. Não temos provas de que a integração hoje seja mais difícil do que no passado. E, de certa forma, pode dizer-se que isso se deve ao facto de o mundo inteiro se estar a tornar mais instruído. Os migrantes que vêm hoje de Marrocos têm uma educação muito melhor do que aqueles que vieram nos anos 60. E parte dos problemas de integração que tivemos na Europa com os norte-africanos nas décadas de 80 e 90, deveu-se ao facto de estes trabalhadores serem muitas vezes analfabetos ou semi-analfabetos e serem oriundos de zonas muito rurais. A mudança de uma aldeia rural em Marrocos para Paris ou Amesterdão era enorme. Mas a maioria dos seus filhos saíram-se muito bem, em média, mesmo se para os pais foi impossível adaptarem-se completamente. Existem boas razões para que os Estados queiram controlar a imigração até certo ponto. Mas a ideia de que a situação está a descontrolar-se, ao ponto de os imigrantes não se conseguirem integrar, não está provada. A minha preocupação é que, ao permitirmos que tantos migrantes permaneçam indocumentados e sejam explorados – e aqui reside a hipocrisia política -, estejamos a criar o problema de integração do futuro. Mesmo nos EUA, agora com Trump, ninguém acredita que 12 milhões de imigrantes indocumentados vão ser deportados. Mas o que isso faz é deixar os imigrantes com medo de pedir ajuda se forem explorados ou estiverem em situações difíceis. Se pensarmos nos seus filhos, com medo, marginalizados, presos na pobreza, sem documentos durante décadas se não tiverem nascido nos EUA, é claro que temos a receita perfeita para os problemas de integração. Há três formas de resolver esta procura elevada de imigrantes. Ou fazemos reformas económicas e do mercado de trabalho que reduzirão a necessidade destes trabalhadores. Mas isso não é fácil. Ou criamos mais canais legais para estes imigrantes. Ou, o que penso ser um debate mais realista, uma combinação de ambos. Não estou aqui para prescrever se a nossa sociedade se deve tornar menos ou mais liberal economicamente, ou ter menos ou mais governo. Isso cabe ao debate público. Mas estes debates e estas decisões têm uma influência fundamental na procura por trabalhadores migrantes. Dei o exemplo dos cuidados a idosos, mas a agricultura, a construção são áreas onde são essenciais. Soube que a indústria do turismo no Algarve está a atrair muitos migrantes. Transportes, entregas, táxis. Vejo isso em Portugal.
 

Podemos então dizer que se não integrarmos esses imigrantes, corremos o risco de estes se isolarem cada vez mais entre eles em certas zonas?

São duas faces da mesma moeda. Sabemos que se os migrantes enfrentam dificuldades, a convivência e solidariedade dentro do grupo podem contribuir para a sua emancipação a longo prazo, porque conseguem organizar-se, muitas vezes abrem negócios e tentam sair dessa situação por conta própria. Por conseguinte, é complicado interpretar automaticamente a concentração geográfica dos migrantes como algo negativo. Mas tem razão. Pode acabar em situações em que certos bairros se tornam verdadeiras armadilhas da pobreza. Têm a expressão “política de avestruz” em português?
 

Sim.

O que estamos a enfrentar são décadas de políticas de avestruz, que negam a realidade da procura de mão-de-obra. E este não é um problema exclusivo da esquerda ou da direita. É um problema para toda a sociedade, que está num estado coletivo de negação. Vejo a divisão entre pró e contra a imigração como maioritariamente retórica. Não há grande diferença entre governos de esquerda e de direita em termos de políticas no terreno. Enfrentam a mesma realidade.
 

Olhando para o futuro, se projetar as próximas duas ou três décadas, que mudanças nos fluxos migratórios globais prevê?

É muito difícil de prever, porque acontecimentos políticos repentinos podem mudar tudo. Mas vamos supor que a Europa se mantém politicamente estável e que mantemos um nível razoável de crescimento económico. Nesse caso, a Europa continuará inevitavelmente a atrair migrantes para colmatar a escassez de mão-de-obra. Isto não significa que precisamos de programas de imigração em massa, e compreendo que as pessoas queiram controlar a situação até certo ponto. Mas é uma ilusão achar que o podemos travar. A imigração é uma característica intrínseca das sociedades modernas e ricas. Provavelmente, poucas pessoas estarão dispostas a arcar com o custo social e económico de uma redução significativa da migração. A imigração é elevada quando a economia está em boa forma. É por isso que, por vezes, brinco dizendo que a única forma de reduzir significativamente a migração é prejudicar a economia. E é isso que ninguém quer. Portanto é provável que a imigração continue. A principal questão é de onde virão esses migrantes. E creio que as probabilidades são elevadas de que venham cada vez mais de países da África subsariana, no caso da Europa, porque o Norte de África está a perder força em termos de potencial migratório. E de alguns países asiáticos mais pobres, como o Nepal, por exemplo, ou o Paquistão. O grande factor de incerteza é a China, porque a China também enfrenta um enorme declínio demográfico. E a grande questão é o que acontecerá se a China começar a recrutar trabalhadores estrangeiros, o que é um cenário bastante plausível. Sendo um país tão grande, isso pode mudar toda a geografia da migração global. Era uma ideia válida até agora a de que existe um contingente quase inesgotável de pessoas dispostas a vir trabalhar connosco. A questão é se isso ainda será verdade a longo prazo. O número de países que necessitarão de trabalhadores migrantes só tende a aumentar. Este processo já ocorreu no passado com o sul da Europa. Toda a região sul costumava ser uma área de emigração para o resto do mundo, enquanto o norte da Europa era uma grande zona de imigração. Mas depois o sul da Europa passou a atrair imigrantes, e esta zona pode expandir-se ainda mais, à Turquia, a Marrocos. Esta tendência acredito que se poderá manter no futuro.

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