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Antónia Colibășanu – “Para nós, romenos, europeizarmo-nos era pertencer àquilo que sentimos ser a nossa alma”

13-10-2026

Entrevista de Leonídio Paulo Ferreira a Antonia Colibasanu, oradora na 7ª Conferência de Lisboa.
Publicada originalmente no Diário de Notícias a 13 Out 2026.


Analista sénior em geopolítica na Geopolitical Futures e professora de geopolítica e relações internacionais na Universidade Nacional de Estudos Políticos e Administração Pública, em Bucareste, Antónia Colibășanu esteve em Portugal para a 7.ª Conferência de Lisboa e conversou com o DN sobre a importância para a Roménia da dupla pertença à UE e à NATO.

 

A Roménia vai celebrar no próximo ano duas décadas de pertença à União Europeia. Pode dizer-se que foi um processo bem-sucedido para o seu país?

Sim, acredito que foi. A Roménia estava a reconstruir-se depois da queda do comunismo, e tivemos um comunismo particular: praticamente não estávamos integrados nos mercados ocidentais nem no mundo ocidental. Para nós, a adesão à União Europeia foi também um processo de reconstrução. Reconstruímos as instituições democráticas, mas também as regras económicas e a forma de trabalhar com os outros e de internacionalizar o nosso mercado. Foi, no fundo, o processo de passarmos a fazer parte daquilo a que aspirávamos: a cultura europeia, a cultura ocidental, o modo de vida ocidental. Isso faz-se devagar, e foi um processo algo doloroso. Mas diria que é um sucesso. Hoje pareço uma extraterrestre diante dos meus alunos, e a diferença de idade nem é assim tão grande. Eles viajam com o cartão de cidadão. Quando eu era estudante, precisava de visto para ir a um país vizinho, já para não falar de vir a Portugal. Só essa mudança de mentalidade mostra o sucesso do projeto.

A integração no Espaço Schengen é uma conquista recente da Roménia…

Há dois anos, sim. Schengen vem fazer a diferença. Mas mesmo antes já podíamos viajar na Europa com o cartão de cidadão. Agora tudo é muito mais fácil, e também é melhor para o comércio e para os transportes em geral.

A vossa vizinha do sul, a Bulgária, que também aderiu à União Europeia em 2007, já tem o euro. Será possível a Roménia adotá-lo num futuro próximo? Há esse debate?

O debate começou. Mas creio que esse processo vai ser mais difícil. Não por não o querermos, mas porque não é um processo político, é um processo económico. E a Roménia atravessa uma situação económica que se pode chamar difícil. Ao mesmo tempo, estamos a construir e a investir muito em infraestruturas, também por causa da guerra ao lado, na Ucrânia. Temos de colmatar lacunas de que o comércio ucraniano precisa e de que nós próprios precisamos para sermos resilientes perante qualquer tipo de ataque híbrido, por assim dizer. Mas a Roménia enfrenta também muita polarização. E, depois da pandemia, vivemos tempos difíceis nos setores da energia e da indústria. Isso está ligado aos mercados mundiais, mas também tem uma dimensão local: ainda não chegámos ao ponto de podermos dizer que temos uma economia desenvolvida e estável. E é isso que é preciso para entrar no euro. É preciso ser suficientemente estável para aproveitar as vantagens da zona euro e sofrer menos com as desvantagens da transição, porque também aí há um período de transição.

Falou da guerra na Ucrânia. Há muita tensão com a Rússia, que chegou a ser acusada de interferir nas vossas eleições. Isso leva-me à adesão à NATO, que aconteceu logo em 2004. Foi também uma decisão muito importante?

Creio que foi a decisão mais importante que tomámos depois dos anos 90. No início dessa década de 2000, apostámos tudo na integração nas organizações transatlânticas, a NATO em primeiro lugar, mas também a União Europeia, que andaram de mãos dadas. Foi a decisão mais estratégica que a Roménia tomou. Porque temíamos a Rússia. Sabemos em primeira mão como é a ameaça russa: estamos no mar Negro e temos uma história muito difícil. Além disso, tradicional e culturalmente, vemo-nos como um país latino num mar de eslavos. Isso explica alguma resistência à cultura eslava que a Rússia impôs, de certa forma, na região. Para nós, europeizarmo-nos era pertencer àquilo que sentimos ser a nossa alma. Era voltar a casa. Isso fez parte da decisão estratégica. E havia a ideia de que só a NATO, e só os Estados Unidos, podiam defender-nos da Rússia, a nós, uma democracia jovem. Víamos a Rússia como um inimigo potencial, mesmo estando muito enfraquecida nos anos 90.

Há um outro país que fala romeno, a Moldova, também ameaçado pela Rússia, que apoia até uma república separatista. Surpreendeu-me ouvir a moldova Maia Sandu dizer que, pessoalmente, votaria a favor da reunificação num eventual referendo, embora saiba que, como presidente moldova, isso não é possível por causa da Rússia. A ideia de a Moldova regressar à Grande Roménia atrai os romenos ou é um tema demasiado delicado?

Creio que é um tema difícil, até perigoso, e explico porquê. A República da Moldova é um Estado por direito próprio. Se olharmos para a história, a Bessarábia, que pertenceu à Roménia, só foi romena durante um período curto da nossa história. Claro que a ligação vai além disso, porque há romenos étnicos na Moldova. Muitos moldovos obtiveram passaporte e cartão de cidadão romenos porque provaram ter ascendência romena. E recebemos de braços abertos os moldovos que vêm, por exemplo, estudar na Roménia. Não só os deixamos vir como os incentivamos, até porque, como os outros países europeus, também não temos uma demografia famosa. Nesse sentido, a ligação existe, cultural e historicamente. Mas é preciso perceber o que é o Estado moldovo. Fez parte da URSS. A Bessarábia já não existe; essa parte histórica da Roménia já não existe. Há minorias russas e há a Transnístria, ainda um conflito congelado, o primeiro a incendiar-se nos anos 90, quando a URSS se desagregava. Há também a minoria de origem turcomana. São muitas camadas formadas mais tarde, sobre certos alicerces, mas formadas sob a URSS. E, geopoliticamente, a ideia de reunificação pode ser usada por uma potência como a Rússia para influenciar a opinião pública romena contra a nossa própria vontade, por assim dizer. O que quero dizer com isto? Falar de reunificação é falar de redesenhar mapas. E redesenhar mapas foi o que a Rússia pôs em jogo quando atacou primeiro a Crimeia e depois a Ucrânia propriamente dita. Nesse sentido, é um projeto perigoso até de pensar. Dito isto, compreendo a presidente da Moldova. Pessoalmente, seria melhor que a República da Moldova estivesse na União Europeia e na NATO, sobretudo na NATO. Ela percebe isso. Desde que ela e o seu partido chegaram ao poder, tentaram abrir o debate sobre a NATO, porque é uma organização de defesa. Na cabeça deles, o tema da reunificação é, na verdade, o tema da entrada da Moldova nas mesmas organizações internacionais que garantem a segurança da Roménia. Creio que também percebem o perigo de falar em redesenhar mapas. Por isso digo que, sim, é um tema que discutimos. Sou analista geopolítica e não posso ignorá-lo. Mas tenho de ter em conta as várias camadas e o elemento perigoso, e dizer com realismo que, neste momento, é praticamente impossível chegar lá. Ao mesmo tempo, percebo que politicamente faz sentido discuti-lo quando se quer que o país pertença às mesmas alianças que a Roménia. De que outra forma se explica aos moldovos que precisam de estar na NATO e na União Europeia? Já perceberam por que precisam de estar na União Europeia, mas a questão da NATO continua por resolver. E continuam a ter o conflito congelado e a pergunta: a Rússia vai entrar? Essa é uma questão em aberto.

 

Como vê o possível alargamento da União Europeia aos países dos Balcãs Ocidentais? Será também uma oportunidade para a Roménia?

Creio que sim, mas vai ser muito, muito lento. Vejo a adesão da Moldova como mais provável do que o alargamento aos Balcãs Ocidentais. Porquê? Porque as condicionalidades impostas aos Balcãs Ocidentais cansaram esses países. Receio que não haja vontade política suficiente para avançarem em direção à UE. E a própria UE enfrenta muitos problemas e não consegue promover o projeto europeu junto deles. Há uma espécie de cansaço dos dois lados e já não há sentido de urgência. A urgência é maior em relação à Moldova e à Ucrânia. Esses processos também serão lentos, mas talvez a urgência e as pressões estratégicas atraiam mais atenção. Podem pôr a UE mais disposta a promover-se junto desses países do que junto dos Balcãs Ocidentais.

 

Disse que está otimista quanto à adesão da Moldova. Mas a situação da Ucrânia é diferente, por estar em guerra e pela dimensão…

A Ucrânia é outra história. Estou otimista quanto à Moldova no sentido de se irem fechando capítulos, mas não necessariamente quanto a uma entrada rápida na UE. E a razão é a Transnístria. Não vejo como isso se resolva facilmente. Na Ucrânia, antes de mais, há uma guerra em curso. Não sabemos se vamos ter um conflito congelado ou não. Não sabemos como vai ficar o mar Negro. E essa, creio, é a grande questão, porque no mar Negro também está a Turquia. Temos de ter presente que o objetivo da Rússia na Ucrânia é cortar-lhe o comércio e o litoral, porque é assim que se asfixia Kiev. Se conseguir isso, ganhou a guerra, política e economicamente. No mar Negro ficam então a NATO, o Cáucaso, a Rússia e a Ucrânia. A NATO está lá com a Turquia, a Roménia e a Bulgária, as duas últimas também na UE. A Ucrânia será um Estado muito frágil, ainda por estabilizar em termos de gestão e resolução de conflitos. Isso vai ser muito difícil de gerir institucionalmente. No caso da Roménia, sabemos como foi difícil reconstruirmo-nos depois do comunismo. Como vai a Ucrânia lidar com a reconstrução depois de qualquer entendimento que ponha fim a este conflito? Terá de reconstruir literalmente o país, não só as instituições. Vai ser um processo muito longo, dos dois lados. É por isso que não estou muito otimista.

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