Li Xing – “Foi a política dos EUA que forçou China e Rússia a unirem-se”


Entrevista de Leonídio Paulo Ferreira a Li Xing, orador na 7ª Conferência de Lisboa.
Publicada originalmente no Diário de Notícias a 15 Out 2026.
Fotos: Leonardo Negrão
Professor catedrático na Universidade de Estudos Estrangeiros de Guangdong, o académico chinês é também professor na Universidade de Aalborg, na Dinamarca. Li Xing esteve em Portugal para a 7.ª Conferência de Lisboa, na Gulbenkian, e conversou com o DN.
Recorda-se do dia da morte de Mao Tsé-tung?
Sim. Foi há 50 anos. Andava na escola secundária. Depois houve uma espécie de funeral em toda a China. As escolas fecharam nesse dia, mas tivemos que nos reunir e permanecer de pé, firmes, três minutos.
Quão diferente é a China de hoje da dos anos 1970, após as reformas de Deng Xiaoping?
É muito difícil descrever as mudanças por palavras. São mudanças profundas, fundamentais. Vim muito cedo para a Europa, vivi 40 anos na Dinamarca, e há dois anos decidi voltar para trabalhar na China. Agora vivo lá. Não se trata só de infraestruturas, é a sociedade inteira: tecnologia, educação, segurança social, saúde, tudo. Em todos os aspetos a China deu um verdadeiro grande salto em frente.
Desde 2010 que a China é a segunda maior economia do mundo e, em paridade de poder de compra, desde 2014, é a primeira. Como descreve a relação com os EUA? São concorrentes, rivais, inimigos?
Os Estados Unidos usam hoje o termo G2. Os dois países percebem que a relação entre ambos é determinante. São concorrentes em pé de igualdade. Há dez anos os EUA ainda estavam um pouco à frente, mas hoje, em quase tudo, da tecnologia à defesa, estão ao mesmo nível. Os EUA compreendem que já não conseguem travar o desenvolvimento da China, isso está além das suas capacidades. A grande questão para os dois países é como coexistir. Donald Trump visitou a China em maio e Xi Jinping visitou os EUA em setembro. Duas visitas em meio ano mostram que os líderes querem reparar a relação. Os últimos dez anos foram turbulentos, com sanções e embargos mútuos e uma guerra comercial terrível.
Vê diferenças entre o primeiro e o segundo mandato de Trump em relação à China?
Sem dúvida. No primeiro mandato já tinha começado com embargos e restrições. No segundo passou ao que chamamos uma guerra quente, já não fria como a da União Soviética com os EUA, ao usar as tarifas contra a China. E a China, claro, também tem componentes críticos e outros pontos de estrangulamento que pode usar para resistir aos embargos e às sanções norte-americanas.
Por vezes compara-se esta competição à dos EUA com a URSS. Mas é muito diferente, sobretudo porque a China faz parte da globalização.
A rivalidade entre grandes potências é historicamente normal. O que é anormal hoje é que as duas superpotências têm uma rivalidade intensa e, ao mesmo tempo, estão economicamente integradas. Isso é raro na história. Nunca tinha havido duas superpotências em confronto tão forte e, ao mesmo tempo, com as economias, as tecnologias e tantos outros aspetos tão interligados.
Diria que Taiwan é a questão mais complicada de lidar, por ser uma linha vermelha para a China e, ao mesmo tempo, algo simbólico para os EUA?
Taiwan é uma questão muito emocional. A guerra na Ucrânia é um tema emocional para os europeus, mas Taiwan é o tema mais emocional para a China. É a questão de princípio das questões de princípio. Os EUA querem por vezes usar Taiwan como moeda de troca, e a China diz que não. Taiwan faz parte da China, e isso é um consenso global, incluindo em Portugal, que reconhece que Taiwan é parte da China e que a República Popular da China é o governo legítimo de toda a China. Não se pode usar Taiwan como moeda de troca. Quando se mistura Taiwan na relação, a China fica muito incomodada e a relação piora imediatamente.
Acredita numa solução pacífica para Taiwan?
Se seguirmos a teoria ocidental de que a população local deve decidir o seu futuro – e a China não aceita essas ideias ou valores ocidentais -, nunca recuperaríamos Taiwan, porque a população vai simplesmente votar e dizer que não quer voltar para a China continental. Mas o futuro de Taiwan não pode ser decidido pela população local. É esse o princípio. Quando Hong Kong voltou para a China, os habitantes de Hong Kong concordaram? Não foi preciso. Quando Macau voltou, pedimos autorização aos portugueses ou à população local? Não. A integridade territorial não é algo que deva ser decidido pela população local.
Hong Kong e Macau devolvidas. Taiwan é a última parcela fora do controlo de Pequim.
Sim, mas são de natureza é diferente. Macau e Hong Kong eram colónias, e Taiwan é o resultado de uma guerra civil: uma das partes foi derrotada e fugiu para Taiwan. Mas é claro que os EUA, e também a Europa, não querem que Taiwan volte para a China. Eu sei disso. Oficialmente dizem que respeitam a política da China, mas por baixo da mesa estão sempre a fazer jogadas. Recentemente, o Parlamento Europeu convidou a chamada vice-presidente de Taiwan para uma reunião, e a China voltou a protestar. Se a União Europeia acha que a guerra na Ucrânia é o obstáculo entre a China e a UE, a China dirá que Taiwan é também a questão mais importante, e que a Europa não nos deve criar problemas aí.
Não lhe vou perguntar diretamente pela Ucrânia, mas sim pela relação da China com a Rússia. Nos últimos anos do regime soviético as relações não eram boas. Hoje a China continua oficialmente comunista e a Rússia já não o é, mas tornaram-se muito próximas. É só por terem inimigos comuns, ou é uma aliança sólida?
Neste momento é uma aliança realmente sólida. Muitos analistas ocidentais dizem que a China e a Rússia não se entendem, que historicamente se detestam e que a Rússia ocupou um grande território chinês. Isso é verdade, mas a situação mudou. E eu defendo que foi o Ocidente, foi a vossa política, foi a política dos EUA, que forçou estes dois países a unirem-se. Cito o que disse o antigo secretário-geral da NATO e ex-primeiro-ministro dinamarquês Anders Fogh Rasmussen: que o alargamento da NATO “deveria continuar até à fronteira da Rússia com a China, que a Rússia é apenas um problema temporário e que a China é o problema final a resolver”. Se os chineses ouvem uma coisa destas, o que acha que pensam? Este é o primeiro ponto. O segundo, sobre o qual escrevi artigos, é que a elite chinesa sente que a Rússia é um escudo. Na conferência, pediram-me que explicasse o que queria dizer. É uma metáfora: havia uma ação muito hostil a ser preparada contra a China, mas, por causa do vosso problema com a Rússia, surgiu essa emergência e a China ficou aliviada da pressão. Agora há a guerra. Por isso a China tem de apoiar a Rússia, porque isso reduz a hostilidade do vosso lado em relação à China. E o Ocidente fica desgastado económica e politicamente e em recursos. Já não tem energia para lidar com a China.
Quando fala de hostilidade em relação à China, fala dos EUA mas também da União Europeia. Viveu muito tempo na UE. Há hostilidade europeia, apesar de tanto investimento e tantas relações comerciais?
Não nos anos 1970 nem nos anos 1980. Mas depois da Guerra Fria a UE acreditou no fim da história, ou seja, que o paradigma neoliberal ia prevalecer e que eram os europeus a decidir. A Rússia tinha de se portar bem. A China também, e sobretudo tinha de mudar. Acreditaram que, ao importar os mecanismos de mercado e fazer reformas económicas, a China se transformaria gradualmente numa democracia ocidental. Não se pode transformar uma civilização numa democracia ocidental. É uma fantasia. A China não mudou, e isso causa muita ansiedade aos europeus e também aos americanos. Ao mesmo tempo, a China cresceu económica e tecnologicamente e tornou-se a superpotência da indústria e das cadeias de abastecimento globais. De repente a Europa percebeu: “Meu Deus!” Em 2019 publicaram um documento que classificou a China como rival sistémico. Isso é muito sério. Significa que o modelo chinês tem tendência para substituir o vosso, que pode tornar-se o modelo dominante que outros países adotam. Desde então tem havido muitos problemas entre a UE e a China.
Está a dizer que a China, mesmo cada vez mais forte, sente uma espécie de cerco ocidental?
Olhe para localização de Taiwan e para a China: a China estava cercada, com a primeira e a segunda cadeias de ilhas. Mas hoje desenvolveu uma capacidade militar tão grande que os EUA foram afastando gradualmente as suas forças, porque os mísseis chineses podem atingir qualquer alvo, sobretudo porta-aviões, num raio de 3000 milhas da sua costa. E nas sanções económicas, muitas vezes é a Europa que propõe aos EUA que criem problemas à China em conjunto. Mas, por sorte, Trump detesta mais a União Europeia do que a China. É a vossa desunião dentro do bloco ocidental.
O que favorece a China.
Sim. Trump respeita os fortes, as personalidades fortes. Respeita Putin e respeita a China. Veja o que disse o vice-presidente J.D. Vance: que a ameaça à Europa está dentro dela, que a Rússia e a China não são vossas inimigas, que o vosso inimigo está dentro. Os EUA têm hoje uma visão diferente da União Europeia.
Última pergunta: a Iniciativa Faixa e Rota é um sucesso, tanto económico como em expansão da influência chinesa?
Do ponto de vista ocidental, houve muitas restrições e muita hostilidade na Europa. A Itália saiu da Faixa e Rota. Portugal, julgo, continua signatário, e por isso, da perspetiva chinesa, é um país amigo na Europa. Mas se formos além da Europa e dos EUA, é um grande sucesso em África, na América Latina e no Sudeste Asiático. Hoje a Europa e os EUA querem reduzir os riscos em relação à China. Mas a China também quer reduzir os riscos em relação a vocês. Sabe qual é hoje o maior parceiro comercial da China? Não são os EUA, nem a Europa, nem o Japão. É a ASEAN. E o comércio da China com o Sul Global é maior do que com os EUA, a UE e o Japão juntos. O que significa isso? Que, tal como vocês querem diversificar mercados e cadeias de abastecimento, a China também quer diversificar parceiros. Li recentemente um relatório segundo o qual a China tem tido mais sucesso no de-risking do que a UE. E nas infraestruturas a Faixa e Rota é um grande sucesso. Não esqueça que traz também pacotes culturais, como os Institutos Confúcio. Na Europa e nos EUA fecharam-nos, mas na América Latina, que eu saiba, as instituições estão em fila para pedir ao governo chinês que abra mais. Em África também. Muita gente no Sul Global fala hoje chinês. Muitos chineses ficam surpreendidos quando chegam a uma capital africana e o taxista fala em chinês e põe música chinesa. A influência chinesa é cada vez mais popular no Sul Global, e isso é também resultado da expansão da Faixa e Rota. Visto da vossa perspetiva, duvidam. Visto do Sul Global, têm de admitir que é um grande sucesso.
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