PUBLICAÇÕES E NOTÍCIAS / NOTÍCIAS /Opinião | O Desenvolvimento em Tempos de Incerteza

Opinião | O Desenvolvimento em Tempos de Incerteza

26-04-2018

 

Incerteza será provavelmente o atributo que melhor descreve os tempos que hoje
vivemos. Desde logo a propósito do poder. Sobre a capacidade de resiliência de regras
e instituições criadas após a segunda grande guerra para evitar ou dirimir conflitos
violentos entre Estados e para impedir novas tragédias causadas por interesses
comerciais opostos. Estas são hoje fragilizadas pelas reconfigurações geopolíticas
iniciadas com o fim da Guerra Fria, bem como pelo ressurgimento de potências
regionais e pela diversidade de novos atores na cena internacional.

Também pelos novos ambientes de Segurança. A par do reacendimento de antigos
conflitos entre Estados, que mais do que resolvidos estavam contidos, ressurgem
conflitos identitários, nacionais ou religiosos, que parecem fazer colapsar o tempo. Na
verdade, é notável a coexistência de guerras religiosas características do tempo das
cruzadas, de conflitos nacionalistas típicos dos contextos da primeira grande guerra
no século XX, ou de ameaças que nos fazem regressar aos ambientes da Guerra Fria.
Ainda, dada a súbita fragilidade evidenciada pela globalização. Uma realidade que
nos parecia ancorada nos avanços tecnológicos e nos interesses económicos e
empresariais das democracias liberais, é hoje ameaçada pelo aumento das
desigualdades sociais a par de enormes concentrações de riqueza. Desigualdades que
extravasam largamente as fronteiras geográficas entre norte e sul e que são
acompanhadas não só por tensões sociais e lutas políticas e sindicais, mas também
pelo crescimento de posições antiglobalização.

Por outro lado, pela degradação das condições de vida do planeta. A aceleração de
mudanças climáticas e de fenómenos de desertificação, em paralelo com o
crescimento demográfico, põe em causa a sustentabilidade das condições de vida em
cada vez mais zonas do globo. Estas realidades induzem o agravamento de conflitos e
desastres sociais e expõem tensões entre interesses locais e globais que têm levado ao
abandono ou ao desrespeito por acordos multilaterais, que se revelam quase tão
frágeis quanto necessários.

Certamente pelo reflexo destas e de outras dinâmicas sobre as pessoas. O aumento
das migrações e desastres humanitários, a degradação do ambiente e a escassez de
água e terra arável, a desvalorização do trabalho, as contrações no rendimento das
classes médias nos países industrializados. Não obstante a diminuição da pobreza
absoluta e a expansão de classes médias em vários países em desenvolvimento, o
crescimento de populismos e da xenofobia pressionam hoje governos e regimes
democráticos.

Por fim, pelo rumo e pela continuidade da integração na Europa. O aumento de
pulsões nacionalistas e a rejeição de modelos centralistas, a evidente crise dos partidos
políticos tradicionais e a ausência de lideranças políticas são fenómenos evidentes. Os
movimentos e as ideias pró-europeístas, que caracterizaram as primeiras décadas da
construção europeia e do pós-Guerra Fria, parecem hoje distantes das prioridades dos
cidadãos e, com particular relevo político, longe das preocupações das atuais
gerações.

O debate sobre estas incertezas do desenvolvimento será feito na edição deste ano
das Conferências de Lisboa, a 3 e 4 de maio, na Fundação Calouste Gulbenkian, na
qual participarão cerca de três dezenas de investigadores e analistas políticos
portugueses e de uma dúzia de outros países.

 

Fernando Jorge Cardoso
Professor Universitário e Diretor Executivo do Clube Lisboa

Artigo publicado no Diário de Notícias, a 24 de abril de 2018.

Voltar

Categorias

  • Sem categoria

Tags

  • #CONFERENCIASLX2018
  • Conferências de Lisboa
  • incerteza
  • política internacional
  • RELAÇÕES INTERNACIONAIS
  • sistema mundial
Desenvolvido por A Cor Laranja